Daniel Dockery's Portfolio

animî nostrî dêbent interdum âlûcinâri

Machado, “O delírio”

May 18th, 2012

Joaquim Maria Machado de Assis, Memorias Posthumas de Braz Cubas (1881), cap. 7, “O delírio” (“Delerium”):

[…] espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita do mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.

—Pobre minuto! [Natureza] exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espectáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflictivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?

Translation:

[…] the voluptuousness of nothingness awaits you.

When that word echoed like thunder in that immense vale, it seemed to me it would be the last sound I’d ever hear; I seemed to sense the sudden decomposition of my self. Then I faced her with pleading eyes, and I asked for a few more years.

[Another] mingy minute! [Nature] exclaimed. For what do you want a few more moments of life? To devour and be devoured later? Aren’t you sick of the spectacle and the struggle? You know all too well all that which I have provided for you of the least foul or least painful: the dawn of the day, the melancholy of the evening, the stillness of the night, the ways of the land, sleep, ultimately the greatest blessing from my hands. What more do you want, you consummate moron?

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